
Mart'nália é o samba em pessoa. Espontânea como quase ninguém nesse mundo pode sequer sonhar em ser, ela já pratica o princípio básico do Música de Bolso desde que nasceu: mesmo no palco do Carnegie Hall, faz música como quem está no quintal de casa. Não enche de ornamentos ou vernizes as canções que não pedem ornamentos ou vernizes. Por isso, mas não só por isso, era nosso sonho de consumo desde sempre.
Gravamos suas participações para o Música de Bolso numa tarde gelada e chuvosa de sábado, aproveitando sua passagem por São Paulo para duas apresentações no Tom Jazz (disputadíssimas, aliás). O tempo feio - além do "se vocês levarem minha cantora para o frio eu mato vocês" ameaçado por sua empresária Marcia Alvarez - impediu que saíssemos do hotel, por isso tivemos que improvisar.
"Pretinhosidade" ( Mart'nália/Mombaça ) é o LADO A e foi feito no próprio quarto da cantora, com toda sua banda fazendo a festa em cima da cama de casal onde Mart'nália havia passado aquela noite. Alfredo "Doca" Machado faz a levada ao violão, enquanto Analimar Ventapane, Jorge Ailton, Menino Ovídio, Cassiano, Macaco Branco e Junior Crispin esquentam o batuque.
"Chega" ( Mart'nália/Mombaça ), nosso LADO B, é uma espécie de continuação de "Pretinhosidade": Mart'nália sai do pagode no quarto e segue só com seu violão cantando pelos corredores do hotel. Pega o elevador e sai para a chuva na cobertura do prédio. A luz natural chega ao mesmo tempo que a personagem do samba se liberta: "Ainda mais agora que eu já viajei pra me livrar de você, não quero mais ser seu amigo nem inimigo: nada".